O discurso jornalístico-político e o ordinário do sentido - Unisul

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O discurso jornalístico-político e o ordinário do sentido

“O discurso jornalístico-político e o ordinário do sentido” foi o tema da manhã desta terça (10) dos “Encontros Discursivos em Cultura e Mídia”. Atividade foi desenvolvida pela professora Luciana Vinhas, da UFRGS. Ao apresentar os resumos de dois artigos de sua autoria, Luciana demonstrou, pela via da Análise do Discurso francesa, como o discurso jornalístico da mídia hegemônica deixa de fora os dizeres do cotidiano, o “ordinário do sentido”.

Luciana analisou as influências que tomam o discurso jornalístico em sua atuação no político, na relação com o discurso jurídico, apesar do efeito de neutralidade construído pela mídia hegemônica. No discurso jornalístico, determinados sujeitos se identificam com essa “imparcialidade”. Em seguida, ao falar do ordinário do sentido, Luciana apontou a necessidade de se analisar a “linguagem ordinária”, o que se fala no cotidiano, nas “massas”, por baixo das estruturas de poder.

Após as considerações teóricas, Luciana apresentou dois artigos nos quais as noções de discurso jornalístico e do ordinário do sentido são mobilizadas. O primeiro, uma análise de uma edição do Jornal Boca de Rua, periódico editado por moradores de rua de Porto Alegre (RS), que noticiava a morte de um dos fundadores do próprio jornal, Leandro Ferreira. Tanto na capa quanto no texto das páginas internas, o jornal foge dos padrões encontrados nos periódicos hegemônicos e não tenta se afastar de uma evidência de engajamento político. “A mídia hegemônica faz uma seleção em relação à memória discursiva. Dos corpos, das pautas que podem ter voz”, diz Luciana.

Na capa do Boca de Rua, após uma citação de uma frase que Leandro costumava repetir, “Força na peruca”, a linha de apoio conta com a descrição de Leandro como pai, colega e “morto pelo sistema”. No texto interno, existem fotos e o relato da morte de Leandro. Luciana identificou que o jornal toma uma posição contra hegemônica, de resistência. “Há uma tensão, uma ruptura com aquilo que vem sendo reproduzido pela posição hegemônica. A partir daí podemos compreender que há uma resistência a partir de uma luta simbólica”.

O segundo artigo analisa a construção da polarização entre o ex-presidente Lula e o atual, Bolsonaro, pela mídia hegemônica. Lula e Bolsonaro não são representantes simetricamente opostos em um funcionamento ideológico, mas esse efeito de polarização nos veículos midiáticos hegemônicos “acaba restringindo a disputa e o debate possível”, segundo Luciana. Pelo recorte de imagens dos gestos manuais de “L de Lula” e de “arminha com a mão”, Luciana foi aos jornais observar como essa polarização é mantida midiaticamente.

Em uma fotografia, ao lado de Bolsonaro, trabalhadores empunhavam um gesto ambíguo: poderiam ser tomados tanto como “L de Lula” quanto como “arminha com a mão”, a depender da memória discursiva a ser mobilizada. Veículos midiáticos tomaram, como notícia, trabalhadores que fizeram o “L de Lula” em foto com Bolsonaro. “É como se tivéssemos um enunciado dividido”, afirma Luciana, ao relacionar os implícitos da imagem em sua relação com a ideologia. “Há uma rachadura da imagem por conta desse efeito de polarização”, que não está explicita na imagem, continua Luciana.

Os trabalhadores da foto, após as manchetes, se pronunciaram afirmando que não era um “L de Lula”, mas sim uma “arminha com a mão”. Nisso, outra forma de se estabelecer os implícitos, que escapou aos veículos midiáticos, aparece. “A partir desse gesto, conseguimos perceber como o mesmo elemento material pode conduzir para diferentes efeitos de sentido possíveis de serem estabelecidos”, conclui Luciana. Em seguida, os participantes do encontro puderam comentar e tirar dúvidas com a professora.

Luciana Vinhas é doutora em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestre em Letras pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel) e graduada em Letras-Português e Inglês pela UCPel. É professora adjunta de Língua Portuguesa no Departamento de Línguas Clássicas e Vernáculas (DECLAVE) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

PPGCL (Colaboração de Thomas Falconi).

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