V SEDISC: mesa-redonda discute os impactos da tecnologia digital - Unisul

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V SEDISC: mesa-redonda discute os impactos da tecnologia digital

Mesa-redonda Discurso, Arquivo, Tecnologia, mediada pela Profa. Solange Mittmann (UFRGS), movimentou os participantes do V SEDISC na tarde desta quinta-feira (12).

Encerrou hoje (12) o eixo temático V, coordenado pela Profa. Solange Mittmann (UFRGS), com a mesa-redonda Discurso, Arquivo, Tecnologia, que contou com a participação da Profa. Mônica Paz, da Profa. Solange Gallo e do Prof. Jorge Machado.

A fala de abertura de Solange Mittmann abordou as redes digitais como espaço de controle, apropriação e mercantilização das informações dos usuários, tomados como consumidores e não como cidadãos, mas também destacou-as como um espaço de furo e de resistência. A professora ressaltou ainda a recorrência da temática em eventos e publicações de analistas do discurso, o que aponta para a necessidade de debater o assunto de diferentes maneiras.

Dialogando com os trabalhos apresentados na terça (10), a coordenadora do eixo destacou alguns dos principais temas abordados no Simpósio, que proporcionou pontos de contato entre as pesquisas. Sua fala reforçou a interdiscursividade da pesquisa acadêmica, salientando o político como constitutivo do fazer científico e o litígio social como gerador de leituras. “De quantos outros ângulos é possível olhar para os objetos com os quais nos deparamos?”, questionou a professora.

Em seguida, foram apresentados os convidados: Mônica Paz (pesquisadora do GiG@/UFBA) Jorge Machado (USP) e Solange Gallo (PPGCL-Unisul):

Em seu trabalho, intitulado Golpes digitais de engenharia social na pandemia de Covid-19 no Brasil: impactos sobre a sociedade e na vida das mulheres, a convidada Mônica Paz destacou os impactos da pandemia na vida das pessoas, no contexto do isolamento social e o impacto das tecnologias digitais nessa conjuntura. Analisando dados da FEBRABAN sobre o consumo de produtos digitais durante a pandemia, a autora mostrou o aumento do uso de cartão de crédito nesse período, bem como o aumento no uso dos canais digitais dos bancos.

Para falar sobre os golpes digitais, a pesquisadora trouxe a noção de engenharia social, que reflete sobre as formas de manipulação, de exploração das vulnerabilidades humanas para induzir as pessoas a fornecerem dados ou executarem ações em prol de golpistas. Além disso, apresentou os diferentes tipos de golpes relatados durante a pandemia, relacionando esse contexto com o viés de gênero, especialmente sobre o impacto da pandemia na vida das mulheres.

A fala do Professor Jorge Machado (USP) iniciou dialogando com a fala de Mônica, trazendo a memória de alguns escândalos de manipulação e divulgação de dados na internet. Além disso, Machado trouxe pontos da história do software livre e expôs a vulnerabilidade dos sujeitos-usuários que, diante da promessa da conectividade, concedem seus dados a grandes corporações. Além disso abordou o uso de programas de empresas privadas por universidades públicas, o que acaba por fornecer grande quantidade de dados a tais empresas.

Trazendo a perspectiva discursiva, a professora Solange Gallo (PPGCL – Unisul) analisou os espaços do SEDISC enquanto evento remoto a partir da noção de espaço discursivo informatizado. Gallo explicou que esta noção ajuda a pensar o lugar em que o sujeito habita a internet, onde a interlocução acontece. “Nesses lugares, é possível observar qual posição o sujeito ocupa e quais processos discursivos estão determinando os sujeitos nessas posições”, elucidou. Analisando o site do evento e o ambiente virtual da Unisul, onde está sediado, a professora mostrou que as ferramentas do evento são as mesmas da Educação a Distância da Universidade. Desta forma, reforçam-se as normatizações do discurso acadêmico, as quais definem as relações de interlocução possíveis ao evento nesse espaço.

Ao analisar os espaços do evento utilizados para que ocorra a transmissão ao vivo das mesas e simpósios, ou seja, a plataforma Zoom e o Youtube, Solange Gallo observou o funcionamento do chat, o qual se configura como meio possível de interlocução entre os participantes, com certa liberdade, mas ainda controlada, uma vez que não se pode interromper os palestrantes, por exemplo. Destacou ainda que as condições que determinam o evento para que ele ocorra em um formato que represente o presencial não são dadas pela materialidade digital, mas sim pelo discurso acadêmico-científico. “A condição técnica da materialidade digital é muito mais abrangente do que estamos aqui fazendo uso. Inclusive, para que esta cena tivesse este contorno que está tendo, muito planejamento foi feito, existe roteiro, existem monitores filtrando o que acontece no chat, uma série de providências tomadas pra que as coisas aconteçam da forma que estão acontecendo” afirmou Gallo.

 Manifesto: um fórum permanente de diálogo

Durante a fala de Solange Gallo, alguns participantes movimentaram o chat, construindo coletivamente um manifesto que propunha estender o evento na forma de um “Fórum permanente e aberto de produção e análise de efeitos discursivos”. Alguns trechos do manifesto estão transcritos a seguir:

“Concordamos em não ceder completamente ao processo de midiatização engendrado na materialidade digital, e continuar selecionando nossos interlocutores…

Mas não precisamos ficar contendo o que extravasa. Não precisamos nos ater.

Não precisamos nos restringir ao imaginário de uma mesa de um evento, nem à sua normatização, porque nós não estamos numa mesa.

Admitir a materialidade digital é aceitar fazer ciência em espaços enunciativos cambiáveis e presentes. Não apresentar somente ciência com efeito de fecho.

Processar ciência. Fazer análises. Discutir interpretações. Midiatizar, dessa forma, nossa prática.”

 Passando para o bloco de perguntas, a mediadora Solange Mittmann questionou os três participantes sobre a quebra dos limites entre o ambiente público e o privado, como o compartilhamento público do conhecimento, o roubo e a venda de dados privados, ou de dados públicos para uso privado. Mônica Paz direcionou sua resposta para o aspecto da segurança do sujeito usuário, os rastros digitais que são utilizados “em prol da experiência, destacando que: “isso pode ter algum dano, essa quebra de limite é o que consagra a não segurança”, afirmou a pesquisadora. Jorge Machado trouxe, em sua resposta, o exemplo das ferramentas de comunicação e registro de memória, como agenda e drive do Google, que acabou sendo incorporado pelo sujeito como algo que o levaria a ir além das limitações intelectuais, físicas do ser humano, da ordem do privado, “mas que ele esquece que está na esfera pública, uma vez que está na rede digital, deixando uma série de metadados disponíveis”.

Em sua resposta, Gallo trouxe o modo como o sujeito está inscrito na discursividade. “Os sujeitos dos discursos de oralidade, do ordinário, se relacionam com o digital de forma mais consensual”, explicando que, uma vez que a midiatização oferecida pelo digital insere o sujeito nos debates que estão ocorrendo, isso o leva a se sentir incluído. Por outro lado, ressaltou a professora, “o sujeito do discurso legitimado, como o acadêmico, não está numa relação consensual plenamente, ele está em uma contradição, negociando o tempo todo com a potencialidade oferecida pelas redes sem entrar naquele consenso”.

Posteriormente, a professora Solange Mittmann abriu às questões do público realizadas via chat, as quais comentaram a (in)segurança dos dados disponíveis nas redes digitais, a mercantilização e a contradição entre autenticidade e falta de autenticidade no digital. Por fim, convidou os participantes para a abertura do VI Eixo Temático do SEDISC: Discurso, Mídia e Memória, coordenado pela Profa. Dra. Giovanna Benedetto Flores (PPGCL-UNISUL) na próxima terça-feira.

Texto: Debbie Noble (PPGCL-Unisul)
Revisão: Patricia Menezes Castagna (PPGCL-Unisul)

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