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Ana Carolina apresenta palestra na Universidade do Estado da Bahia

A convite do Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural da Universidade do Estado da Bahia, a professora Ana Carolina Cernicchiaro ministrou a palestra “Arte indígena contemporânea e a estética da resistência” na manhã desta quarta (10). Atividade fez parte do fórum de debates “A condição indígena em tempos de bolsonarismo”, organizado por Juliene Cristian Silva Pinto, como seu exercício de tirocínio docente vinculado ao projeto “A memória do mal: ‘guerra sem fim’ entre o direito originário e o direito de matar a população indígena brasileira”, orientado pelo professor Dr. Osmar Moreira dos Santos.

Cernicchiaro falou sobre a agência política da arte indígena contemporânea, discutindo como estes artistas vêm resistindo ao silenciamento da arte ocidental, mas também aos cinco séculos de genocídio e ecocídio (duas faces de uma mesma moeda), que recrudesceu com a perseguição declarada do atual governo aos povos originários.

Conforme avalia Célia Tupinambá, o presidente elegeu os povos indígenas como alvo número 1, aniquilando direitos, impedindo a demarcação de terras e apoiando a tese do Marco Temporal, incentivando o garimpo ilegal e a grilagem, flexibilizando licenciamentos ambientais, financiando o armamento no campo e desmontando políticas indigenistas.

A ascensão da arte indígena contemporânea no sistema da arte não pode ser desvinculada dessa luta pela própria existência e do protagonismo das lideranças indígenas na resistência contra as forças fascistas que nos governam. “Não há como falar em arte indígena contemporânea sem falar dos indígenas, sem falar do direito à terra e à vida”, afirma o “artivista” macuxi Jaider Esbell. Também para Denilson Baniwa, outro artista importante da atualidade, “os povos nativos sempre foram representados, expostos e estudados por meio do seu silenciamento. Dessa forma a arte produzida por indígenas, seja ela qual for (artes plásticas, cinema, teatro, fotografia etc.), nunca estará destituída de seu sentido e intenção política, mesmo que inconscientemente”.

Segundo Baniwa, os artistas indígenas estão “ocupando um território simbólico e hegemônico que historicamente construiu um imaginário da identidade nacional de forma excludente e discriminatória”. Trata-se, defende Naine Terena de Jesus, de um “momento do avanço de uma autogestão do pensamento indígena (…) em que tomamos consciência de que podemos falar por nós mesmos sem a necessidade do intermédio ou da mediação de outra fala”. Terena foi curadora da exposição Véxoa: Nós sabemos, que esteve na Pinacoteca de São Paulo até março deste ano e juntou 24 artistas e coletivos indígenas. Segundo ela, trata-se de uma exposição de arte contemporânea brasileira tardia, na medida que somente em 2020 os artistas indígenas realizaram uma exposição desse porte na Pinacoteca, “problematizando posturas conservadoras adotadas historicamente não só por essa instituição, mas por diversas outras do ambiente artístico”.

De fato, nestes últimos anos, com cinco séculos de atraso, as instituições de arte do país, finalmente, parecem ter percebido a potência da arte indígena contemporânea. Antes de Véxoa: Nós sabemos, a exposição ReAntropofagia, que aconteceu no Centro de Artes da Universidade Federal Fluminense em 2019, foi uma das primeiras exposições a ter apenas artistas indígenas e curadoria de um indígena – Denilson Baniwa, que foi co-curador junto com Pedro Gradella. A obra que dá título à exposição foi adquirida pela Pinacoteca junto com outras obras da exposição curada por Naine Terena.

Outro trabalho importante de Baniwa, Natureza Morta I, faz parte do acervo do MASP e está exposto lado a lado com Moema, de Victor Meirelles, problematizando a visão romantizada da morte da personagem do poema épico de Santa Rita Durão, que se afoga por amor ao colonizador. O Museu de Arte de São Paulo também adquiriu telas de Duhigó Tukano e Carmézia Emiliano Macuxi e contratou a curadora guarani nhandewa, Sandra Benites.

Enquanto isso, a Bienal de São Paulo desse ano teve a maior quantidade de artistas indígenas de sua história: cinco brasileiros e quatro estrangeiros. No prédio ao lado e como parte da programação estendida da 34ª Bienal, o MAM abriga a exposição “Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea”. Com a curadoria de Jaider Esbell, assistência de Paula Berbert e consultoria de Pedro de Niemeyer Cesarino, a exposição apresenta trabalhos de 34 artistas indígenas que, como lemos no texto expositivo, “atestam que o tempo da arte indígena contemporânea não é refém do passado”, que mobilizam a ancestralidade no agora, “reconfigurando posições enunciativas e relações de poder para produzir outras formas de encontro entre mundos não fundamentadas nos extrativismos coloniais”. Mais do que decolonizar museus, trata-se de um projeto de contracolonizar o sistema de arte ocidental, defende Esbell, ou, podemos pensar, de contracolonizar o próprio pensamento ocidental em seu etnocentrismo e antropocentrismo.

A palestra está disponível na página Pós-Crítica UNEB:

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