“Estou com razão!”, posso confiar? - Unisul

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“Estou com razão!”, posso confiar?

Quem já não teve aquela sensação de absoluta certeza de algo e foi em seguida desafiado pelas evidências? Embora sempre possamos negar o vexame, parece que nossas habilidades de raciocínio não são tão infalíveis como desejamos. Admitir isso, todavia, implica rever nossa concepção de raciocínio como um processo superior conduzido por regras lógicas que, em geral de forma individual e privada, serve essencialmente para obter a verdade e tomar as melhores decisões.

Há inúmeras evidências em ciência pondo em xeque essa concepção. Erros, perplexidade e desistência não são incomuns quando apresento a estudantes do ensino superior problemas com raciocínios lógicos corretos, porém contraintuitivos. Eu mesmo erro, travo e desisto muitas vezes. Nossa primeira reação é pensar que somos estúpidos. Todavia, talvez a definição de raciocínio esteja errada e nossa autoestima possa ser recuperada.
No livro Enigma da Razão, Hugo Mercier e Dan Sperber oferecem uma perspectiva evolutiva e interacional. Para eles, a razão evoluiu como uma adaptação ao nicho ecológico “hipersocial” único de nossa espécie para fornecer, em contextos de rodas de conversas com nossos pares, avaliações e justificativas àquilo que vivenciamos ou pelos menos achamos que vivenciamos.

Bom, pense naquele dia em que tentou convencer amigos ou familiares de que sua visão de mundo estava correta e encontrou resistência. Mas como que eles não veem o óbvio? Imagino que você colocou orgulhosamente seu ponto de vista e, para seu espanto, esses desumanos foram encontrando falhas para as quais você nem tinha pensado.
Em ação, um aspecto fundamental do raciocínio humano: seu forte viés de confirmação. Nós tendemos a raciocinar a favor das nossas crenças porque desejamos viver num mundo estável e sem grandes surpresas. Consequentemente, somos desleixados com nossas crenças favoritas e tendemos a ser meticulosos com as crenças dos outros.

Opiniões divergentes eram provavelmente discutidas em rodas de conversas compartilhando comidas e bebidas em torno da fogueira. Entre iguais, consensos eram construídos e, mais à frente, culturas e civilizações. Longe de atividade isolada, nossa capacidade de raciocinar melhora em contextos de diálogo, mesmo que, aqui e ali, passemos individual ou coletivamente algum vexame. Negar oportunidades de diálogo e de discussão saudáveis, onde nossos pontos cegos são desnudados pelos outros, e os pontos cegos dos outros são desnudados por nós, reduz nossa capacidade de elaborar descrições e explicações mais próximas do que supostamente seja verdadeiro.

Em O dilema das redes (Netflix), os autores denunciam um aspecto muito nocivo das redes sociais. Dado que a obtenção dos lucros é proporcional ao tempo em que nos expomos aos anunciantes, os algoritmos das redes tendem a apresentar estímulos que promovem viés de confirmação. Eles coletam dados de nossas preferências para fornecer mais daquilo que acreditamos e desejamos. O resultado é uma “bolha de insensatez”. Expostos aos mesmos argumentos, em geral pobres, não somos alertados pelo olhar afiado daqueles que não concordam conosco. A única saída saudável é estourar a bolha e nos expormos ao contraditório. No curto prazo, podemos passar algum vexame; no longo prazo, porém, construiremos visões de mundo melhores.

Fábio José Rauen é doutor e Linguística, especialista em metodologia científica e docente dos cursos de graduação em Letras e de mestrado e doutorado em Ciências da Linguagem da Unisul.

Texto originalmente publicado em: https://hoje.unisul.br/estou-com-razao-posso-confiar/.

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